Este país não é para velhos

por José Vilhena Jr.

No princípio do mês de janeiro o Papa Francisco anunciou que iria ser vacinado contra a Covid-19 e criticou os que se opõem à vacinação, afirmando que refletem uma “negação suicida”.

Afirmou ainda, e passo a citar, “acredito que, do ponto de vista ético, todos devem ser vacinados. É uma escolha ética, pois o que colocamos em risco é a nossa saúde, a nossa vida, mas também a vida dos outros.” Infelizmente o Papa anda mal informado e a questão da ética era outra coisa. O Santo Pontífice é, de facto, um homem de fé e pensou que a Humanidade só teria de lidar com o negacionismo, mas não menos importante, desde o início das campanhas de vacinação em vários pontos do mundo, estão a ser relatados escândalos e polémicas relacionados com  “fura-filas” para receber a vacina.

Segundo uma notícia da  TVI24, dos Estados Unidos à Polónia, do Reino Unido a Itália ou aqui na vizinha Espanha, há “fura-filas” de todo o género, de jovens empreendedores a políticos e  altos funcionários, sem faltar até de celebridades. Em Portugal, dada a organização que caracteriza o nosso país, a vacinação começou da melhor maneira, com uma task force que agora finalmente é comandada por um homem das Forças Armadas, em quem deposito renovadas esperanças, mas obviamente não grandes esperanças, porque o Vice-Almirante vai ter de mandar em civis, o que é bem diferente de mandar numa disciplinada tripulação de um submarino.

Todos estes exemplos serviram para voltar ao Papa Francisco, um homem de Fé precupado com os negacionistas e os seus efeitos nefastos, mas distaído com a condição humana e com a manifestação da cobardia. A simples cobardia de quem quer receber a vacina qual “colete salva-vidas” num Titanic pandémico. Já as desculpas dadas, também são planetárias, apontando sempre para aquela situação do resto do frasco, tipo resto da travessa que alguém tem de comer para não ir para o lixo. Enfim, graças a Deus, o mesmo do Santo Pontífice, que há muita coragem no mundo e essa, ao invés da cobardia, é que vai vencer esta pandemia.

Mas, neste grupo de “fura-filas” chamou-me a atenção o caso de um jovem empreendedor de Filadélfia, que criou uma organização sem fins lucrativos que tinha por missão gerir vários pontos de teste na cidade. Parece que o jovem de 22 anos resolveu ser vacinado juntamente com quatro amigos. Depois, durante o passado mês de janeiro, fechou todas as suas operações de testagem para se concentrar na administração de vacinas, mudando de estatuto para entidade com fins lucrativos.

Eu já tinha ouvido falar no famoso “Silicon Valley state of mind”, mas agora na prática tem outro sumo, e ao ler esta notícia fiquei embuído pelo mesmo espírito empreendedor e nesse contexto ocorreu-me logo pensar, mesmo de seguida, na nossa Web Summit. Foi aí que tive uma idea que penso seja brilhante, espero mesmo que alguém leia este meu pobre texto e me chame a algum “Think Tank” para nele fazermos uma sabonária de ideias.

A ideia é simples e consiste em juntar vacinação e web summit e passo a explicar: Este ano a Web Summit, esse evento único no mundo e que espero um dia seja replicado em Marte, acabou por se realizar em Portugal em formato online. Para tal, a organização recebeu uma verba modesta de 11 milhões de euros do Estado Português. Curioso que o astuto irlandês que criou este evento galáctico comentou na altura a polémica resultante do evento online ficar pelo mesmo preço de um evento presencial, repito 11 milhões de euros, dizendo que queria fugir à discussão política doméstica.

O ponto de vista tem uma lógica invejável, ora vejamos: o dinheiro é do Estado, portanto é doméstico e quem o recebe é internacional, fora de portas. Portanto, é possível ter causas internacionais, fazer discursos inspiradores e cheios de retórica e depois receber uma pipa de massa doméstica de uma país que luta contra a pandemia e tem limitados recursos. Segundo o jornal Expresso, parece que o contrato previa causas de “força maior” para suspender as obrigações de ambas as partes, o que libertaria as entidades portuguesas do pagamento de 11 milhões ou de qualquer indemnização, mas possivelmente uma pandemia global não é força maior suficiente.

Dito isto, vamos lá aproveitar o dinheiro e juntar-lhe a vacinação. Como pelos visto temos pelo mundo imensos cobardolas que querem ser vacinados passando à frente dos grupos de risco como pessoas de mais idade, porque não promover já a inscrição na próxima Web Summit num kit startup que inclui inscrição, voo para Portugal numa companhia lowcost daquelas que está a encher a Europa de emissões poluentes constantes, voando a preços  de saldo para todo o lado a toda a hora, mais estadia num Alojamento Local, em Campo de Ourique, num prédio que após ter sido comprado o novo dono despejou todos os inclinos velhotes que foram acabar a vida deles sabe Deus aonde e, a cereja no topo do bolo, incluida na inscrição, a vacinação à chegada ao evento. Reparem, diz a organização que o evento online teve uma afluência de 100.000 pessoas. Ora, num evento que se espera presencial em 2022, acredito que com este kit inscrição + vacina com facilidade se atingem números muito superiores e todos pagantes. 

Esta ideia é muito válida, pois junta empreendedorismo, o teste de mercado já realizado de que as vacinas são um atrativo para todos aqueles a quem falta a coragem de esperar pela sua vez e que ao que parece, serão muitos e por todo o planeta e ainda dá todo um novo sentido ao investimento público, já que cruza transformação digital com vacinação. Tenho consciência que esta ideia poderá tornar a Web Summit definitivamente numa empresa unicórnio.

Por cá, continuem as empresas bicórnio à ribatejana a marrar contra a crise e os velhos que esperem, porque não há startup nem empreendedorismo que lhes valha, ou como dizia um amigo de infância da minha família “Os velhos deviam ser mortos à nascença”, o que também teria sido uma excelente forma de ter controlado a pandemia.

José Vilhena Jr.

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