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O NOJO do FUTEBOL para maiores de 21 anos.

O NOJO do FUTEBOL para maiores de 21 anos.

A Pandemia da estupidez é muito mais contagiosa.

Tivemos algum sossego. Mas voltamos a ter o mesmo esterco humano nas televisões. A cambada de idiotas do costume a discutirem se durante o confinamento ou antes ou depois, coisa nenhuma para além do afrontamento e do insulto no aquário do nojo, do futebol. Constante e ritmado, como animais com o cio que saíram da lama como larvas, coisa anti-natura, todos ansiosos num coito entre um pavão e uma hiena que atávicamente os define. Todos uns impotentes mas lá garganta têm. Garganta funda. São pagos pela profundidade do fellatio, não da inteligência nem de nenhuma capacidade própria a não ser a capacidade que vendem de serem estúpidos que nem uma porta feita de pinho podre e uma boca capaz de sorver esta porra (digo eu agora do futebol) , como diz Guerra Junqueiro da porra do soldado Soriano:

A porra do Soriano, é um infinito assumpto !
Se ella está em Lisbôa ou em Coimbra, pergunto ?
   Onde é que começa ?
                      Onde é que termina
essa porra, que estando em Braga, está na China,
porra que corre mais que o próprio pensamento,
porque é porra de pardal e porra de jumento ??
   Porra !
          Mil vezes porra !
                           Porra de bruto
que é capaz de foder o Cosmos n'um minuto !

Guerra Junqueiro.

Penso que o Amigo João Casimiro de Aguiar retratou esta treta toda, esta estupidez alarve das sanguessugas em torno da indústria do futebol e os coitados imbecis que são levados no arrasto, neste texto de Junho de 2006.

Passo a reproduzir este texto inédito do João Aguiar :

Os Bolatriotas – 19 de Junho de 2006.

Tendo em conta o que sucedeu em 2004, a coisa era de esperar e, portanto, não surpreendeu ninguém: com a aproximação e o início do Campeonato Mundial de Futebol, houve uma nova eclosão do cachecol e da bandeira nacional (fabricada, como é natural e óbvio, na China). Ambos inundaram as lojas, as janelas das residências, os automóveis, os postos abastecedores de gasolina, os cafés de bairro, enfim, foi um dilúvio geral. Ao mesmo tempo, surgia também aquilo a que podemos chamar «produtos derivados»: por exemplo, fui encontrar à venda num hipermercado um artigo a que nós chamamos, em português vernáculo, T-Shirt; sendo que este modelo da vernácula T-Shirt ostenta no peito, orgulhosamente, a letra do hino nacional. Não duvido de que, tal como o cachecol e a bandeira, tal modelo será comprado e usado — talvez até a letra do hino seja lida, quem sabe.

Numa primeira leitura deste fenómeno, haverá certamente quem pense e diga: Patriotismo!

De facto, assim, à primeira vista, poderá parecer que sim.

Mas não nos deixemos enganar pelas aparências.

Porque, na fria e impiedosa nudez do fenómeno, quando observado de perto e em pormenor, conclui-se que os cidadãos (e cidadãs) que exibem a bandeira e se envolvem no cachecol, e que diante das câmaras da TV pulam ritmicamente e gritam «Por-tu-gal! Por-tu-gal!» são os mesmos, os mesmíssimos que se recusarão sem apelo a fazer um sacrifício, ainda que pequeno, pela comunidade; são os mesmíssimos que, futebóis à parte, passam todo o seu tempo a dizer que «isto só neste país»; que explicam uns aos outros como lá fora é muito melhor; que, tendo ido até Badajoz, regressam a garantir que só ganharíamos em ser espanhóis, porque isto não se compara com a vida lá. São também os mesmíssimos que não hesitarão meio segundo em fugir ao fisco, se o puderem fazer com razoável garantia de impunidade; os mesmos, ainda, que envidarão os maiores esforços para manter bem viva a tradição das pontes entre feriados e fins-de-semana; os mesmos que bramarão «crise!» ao mesmo tempo que se endividarão até à medula para terem férias no Brasil (nestes tempos de crise, nenhum verdadeiro português se concebe a si mesmo sem férias no Brasil), um automóvel muito recente (mais de dois anos é mal visto) e um telemóvel, não apenas para si mas também para o Marquinho (três anos) e para a Vanessa (sete), sendo muito desejável que o telemóvel, além de tirar fotografias à família, possa tocar o hino do clube e o da selecção, se é que ela tem um, além de enviar mensagens de vários tipos e ter 50 toques diferentes. Acessoriamente, poderá também fazer telefonemas.

E ainda não acabei: esses entusiastas do cachecol e da bandeira são os mesmíssimos que vêem com esmagadora indiferença (quando não participam na festa) a construção civil, mancomunada com inúmeros municípios, dar cabo da nossa paisagem rural, rebentar com o nosso ordenamento urbano e rodear de betão peças preciosas do nosso património. São os mesmíssimos que recebem com bovina indiferença os atentados do Ministério da Educação contra a língua portuguesa. Os mesmíssimos que, com igual indiferença ou semelhante cumplicidade, assistem à poluição sistemática dos nossos rios. E, sem um protesto (ou, a havê-lo, será muito fraco), à deslocalização de investimentos perpetrada por multinacionais a quem o país deu incentivos e vantagens e que a seguir nos viram friamente as costas para ir explorar ainda mais outros trabalhadores, noutra latitude (não sei de campanhas contra a compra de produtos da General Motors, que abandona a Azambuja para ir explorar melhor os trabalhadores russos).

Tudo isto é verdade e a verdade não é contestável. Assim, se tomarmos como definição de patriotismo «o amor à pátria» ou, em termos menos exaltados, o apego e o carinho ao país de origem ou de adopção, teremos de concluir, inevitavelmente, que toda essa boa gente do cachecol e da bandeira não tem, ou perdeu há muito, um tal amor, um tal apego, um tal carinho.

Quanto ao orgulho pelos êxitos obtidos pelo país, em geral, ou por nacionais seus, há um indicativo infalível: os media, que hoje em dia já não existem para informar mas tão somente para divertir, alimentar vícios (alcoviteirice, sensações «fortes», etc.), só dão verdadeiramente relevo aos êxitos ou inêxitos da bola, porque sabem que é essa a alimentação espiritual de quem os lê, vê ou escuta. Ora, reduzindo-nos uma vez mais à crua nudez deste fenómeno, teremos fatalmente de aceitar o seguinte: é um triste, um miserável critério o de medir o prestígio de um país e de um povo, e a sua auto-estima, pela quantidade e qualidade de pontapés que onze rapazes conseguem dar num esférico cheio de vento.

Ainda que os rapazes sejam, como são, regiamente, imperialmente pagos. Ou até por isso mesmo.

Já ouvi, devo admitir, o seguinte argumento, dito, até, por quem me merece respeito: «Mas é nisso que nós somos bons! De momento, é nisso que nos destacamos lá fora!». Ao que eu respondo: a ser verdade, é tristíssimo e dá mais razão para lamentar do que para festejar; além do que, eu também não meço os nossos êxitos pelo que se diz de nós nesse «lá fora» que os pategos nacionais transformaram em paraíso terreal.

Voltando à nossa boa gente de cachecol e bandeira, deveremos, agora, estabelecer a conclusão que se impõe: esses cidadãos (e cidadãs) não são, na realidade, não são, de todo, patriotas. Estão-se olimpicamente nas tintas para o prestígio e o bem-estar nacionais, antes lhe antepõem, sempre e em qualquer circunstância, o seu prestígio pessoal (carro – telemóvel) e o seu bem-estar individual (férias no Brasil; Cuba já fez a sua época, mas passou de moda). E funcionam exclusivamente em termos de esférico cheio de vento. Vibram, em primeiro lugar, com o seu clube: por ele cometerão, sem hesitar, qualquer crime de lesa-pátria e para ele reservam toda a sua capacidade de amor, carinho e apego. Periodicamente, em tempos de competições internacionais a nível de selecções, como é preciso um outro pretexto para usar cachecol, emborcar vastas litradas de cerveja e gritar qualquer coisa, então fazem-no em nome da selecção nacional.

Não, eles não são, de modo algum, patriotas.

Eles são, muito simplesmente, bolatriotas.

É a bola, a bola em si mesma, que os faz vibrar. É a bola a sua pátria e o clube a encarnação, o suporte material dos sentimentos que ela inspira. Quanto à selecção, à bandeira verde e encarnada (perdão: verde-rubra) e ao cachecol, são, por um lado, meros pretextos e, por outros, reflexos «à la Pavlov» que surgem como reacções a apelos televisivos.

No meio de tudo isto, o único elemento quiçá positivo é a tal T-Shirt com a letra do hino nacional impressa no peito. Para muitos dos que participam na grande euforia bolatriota, será a primeira vez que verão ou lerão (se souberem) tal letra. Possivelmente, será também a única. Talvez que alguns consigam decorá-la…?

Não, não. Seria pedir de mais, é esforço demasiado.

João Aguiar – 19 de Junho de 2006.

João Casimiro de Aguiar

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