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Literacia e Desenvolvimento por Silvano Nascimento

Literacia e Desenvolvimento por Silvano Nascimento

… não basta saber ler e escrever mas é absolutamente necessário, nos tempos de hoje, perceber e interpretar aquilo que se lê…

Quer a UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação Ciência e Cultura) quer a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico), consideram a literacia (capacidade de cada indivíduo em saber ler e escrever) um importante instrumento do desenvolvimento económico, social e humano.

Assim sendo, não basta saber ler e escrever mas é absolutamente necessário, nos tempos de hoje, perceber e interpretar aquilo que se lê, o que se pretende ler e saber consultar e seleccionar a informação disponível, útil e necessária, de modo a se adquirir os conhecimentos e as competências que facilitem a participação activa na sociedade.

Longe vai o tempo em que o diploma da 4ª classe conferia, à grande maioria dos portugueses, as habilitações e as capacidades, suficientes, para o mercado de trabalho. Compreende-se que assim tenha sido dado que as exigências requeridas às pessoas e à sociedade de então estavam muito aquém das de hoje. O mundo mudou de tal forma que compará-las seria, no mínimo, um absurdo.

Referindo apenas o relatório “A Dimensão Económica da Literacia em Portugal, uma Análise”, elaborado pela DataAngel Policy Research Incorporated, apresentado pelo seu coordenador Scott Murray numa conferência que decorreu no dia 2 de Dezembro de 2009 na Fundação Calouste Gulbenkian ficamos, objectivamente a saber, que os portugueses têm os níveis mais baixos de capacidades de literacia, as maiores taxas de abandono escolar e que Portugal é o país da Europa com maior percentagem de pessoas que não sabem ler nem escrever, para além de outras situações que em nada nos regozijam.

O Estado Novo, (regime político também designado de salazarista que governou Portugal de 1933 a 1974 e que não cabe aqui caracterizar), tem vindo a ser apontado como uma das principais causas do empobrecimento em Portugal por ter defendido e promovido a ignorância da população ao longo de décadas cujo resultado está patente na população adulta portuguesa com os mais baixos níveis de literacia da área da OCDE, contribuindo, desta forma, para que o analfabetismo demore uma eternidade a erradicar. Paralelamente, a escola nem sempre tem sabido promover o prazer de ler e a muitas gerações nem sequer lhes foi transmitida a importância e os benefícios da leitura.

Conforme o censos 2001, Portugal entrou no século XXI com cerca de um milhão de analfabetos e o relatório do PNUD de 2005 estima que no nosso país existam mais de 600 mil pessoas, com mais de 15 anos, que não sabe ler nem escrever, que o torna no país da Europa com maior percentagem de analfabetos.

Não obstante, e a fazer fé no relatório PISA/2009 (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), que revela que os alunos portugueses de 15 anos progrediram, muito significativamente, entre 2004 e 2009, nas áreas de português, matemática e ciências, que coloca Portugal no mesmo patamar que a Alemanha, Suécia, França, Estados Unidos, Irlanda, Dinamarca, Reino Unido e Hungria que, segundo a OCDE, é fruto das medidas encetadas pelo governo em que destaca, de entre outras medidas, “o investimento feito em computadores portáteis, o acesso à banda larga, as refeições e o aumento do apoio social escolar bem como o Plano de Acção para a Matemática e a formação de professores em matemática e ciências” sendo, sem dúvida alguma, um dos raros acontecimentos positivos no panorama sombrio instalado na sociedade portuguesa.

Vamos acreditar que, de entre outros, o Plano Nacional de Leitura e o Programa Novas Oportunidades, implementados no país há já alguns anos, venham a proporcionar aos portugueses, jovens e adultos, níveis mais elevados de literacia e de educação e formação de adultos, de forma a melhorar a sua qualidade profissional que, de acordo com a Agência Nacional para a Qualificação, continua a ser inferior à dos seus congéneres integrados na OCDE, com consequências negativas sobretudo ao nível do emprego e da produtividade, por nós sobejamente conhecidas e evidentes na crise actual em que Portugal está profundamente mergulhado,

A mudança alucinante dos nossos dias, que num ápice substituiu a civilização livresca pela civilização informacional e a estrutura da economia mundial exige, cada vez mais, capacidades e competências em literacia, por ser tida como importante motor do crescimento económico, humano e social e do desenvolvimento social equilibrado dos países.

Está demonstrado que ambientes reduzidos de literacia, geram dificuldades no exercício de cidadania, na participação cívica, no mercado de trabalho, nos mais variados níveis de produtividade, no acesso á cultura e em outras actividades geradoras de equilíbrio e bem-estar sociais. Portugal, infelizmente, sabe bem o que isso é.

Por isso, cabe-nos a todos, sociedade civil, fundações e organizações sociais, órgãos autárquicos (Câmaras Municipais e Juntas de Freguesia) e muito particularmente ao Ministério da Educação, alunos e professores, tudo fazer para elevar os níveis de literacia da sociedade portuguesa sem os quais Portugal continuará, cada vez mais, vulnerável e dependente face aos denominados países da “linha da frente”.