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“Uns são filhos, outros são enteados”
Ricardo Ventura

“Uns são filhos, outros são enteados”

“O Sócrates tem um primo. O Isaltino, um sobrinho. Robles tem uma irmã.”

Neste país à beira-mar plantado, temos uma esquerda radical moderna, que, em público, “defende” os mais necessitados e em privado leva a vida e colhe os benefícios dos menos necessitados.

Não existe mal algum em querer viver bem e usufruir daquilo que os bens materiais possam oferecer, muito menos defender os que mais precisam.

O logro é sempre o ser falso. É a contradição do discurso com a prática. Atacar a especulação e aproveitar-se dela. Vilipendiar o Privado em público e pessoalmente servir-se dele, fazer o discurso da diabolização do capitalismo e viver do capital.

São os Robles e os Bloquistas do presente. Que nisto como em outras coisas não existem fronteiras.

Temos ainda uma outra vantagem neste país: já não é só Fátima, futebol e fado. Há também A Família… e A família é muito importante.

O Sócrates tem um primo. O Isaltino, um sobrinho. Robles tem uma irmã.

E ainda dizem que quem tem uma mãe, tem tudo…

A mim ninguém me tira da cabeça que isto começou tudo com um lapso de um gajo qualquer da segurança social que confundiu Alfama com Alfena. Só assim se justificam os 280 000 euros de base de licitação…

E como, neste país, somos também brincalhões, nasceu a anedota do dia:

“O telefone toca.

– Tou sim?
– Tou, Robles?
– Sim, o próprio. Quem fala?
– Aqui Costa.
– Costa…
– Sim, Costa. Costa, o Primeiro…
– Ah… Tudo bem?
– Tudo jóia. Olha aí, ó Robles… tens uns minutos?
– Tenho sim senhor. Em que posso ajudar?
– Ouvi dizer que tens ali um prédio em Alfama… Não sei se é verdade?
– Tenho. Quer dizer, é meu e da minha irmã. Quer dizer, nós pedimos um empréstimo, por isso, quer dizer, também é do banco, não é. E, quer dizer, a decisão de venda, ainda não concretizada, obedece a constrangimentos familiares que não dependem apenas da minha vontade. Quer dizer, todas as minhas obrigações legais, fiscais e de transparência foram cumpridas. Quer dizer, eu sou inocente, hã!
– Ó homem, claro que sim. Não tou a criticar. Queria mesmo saber se estás interessado em vender…
– Quer dizer, constrangimentos, não é… quer dizer, empréstimos… quer dizer, transparência…
– Portanto, queres vender, não é?
– Pois…
– Pronto. É que o meu filho quer abrir um bar em Alfama. E eu queria comprar ali naquela zona. Para a minha filha, percebes. Para ela ficar ali, ahahahah, pertinho do mano. São muito chegados, percebes. Se fizesses assim um precinho… Não é para voltar a vender, ok? É mesmo para a minha filha. Tou? Robles? Ora porra. Desligou.”
(Rui Rocha)

 

O jornal O PÚBLICO foi investigar;

O edifício que Ricardo Robles e a irmã têm em Alfama foi posto à venda como um “prédio para investimento em área prime”, cujos “apartamentos estão prontos para serem utilizados em short term rental”. Isto é, alojamento local para turistas. No anúncio da imobiliária, que foi retirado da Internet mas a que o PÚBLICO teve acesso, diz-se que esta é uma “oportunidade única em área turística no coração de Lisboa” e descrevem-se as características do imóvel: são 11 apartamentos, sendo que o maior tem 41 metros quadrados e o mais pequeno 25. Os restantes têm 28, 29, 30, 31, 33 e 35 metros quadrados. “Todos possuem cozinha equipada, vidros duplos, ar condicionado e piso em madeira tábua corrida”, lê-se no anúncio publicitário. O edifício resulta “da junção de dois prédios”, tem 728 metros quadrados e três portas para a Rua do Terreiro do Trigo. Além de 11 fracções, tem três lojas. É apresentado como estando “localizado em frente ao Terminal de Cruzeiros de Lisboa, ao lado do Museu do Fado e do charmoso Largo do Chafariz de Dentro”.

Assim, o prédio do vereador do Bloco de Esquerda na Câmara de Lisboa e da sua irmã iria muito provavelmente ser vendido a uma empresa de promoção de alojamento local, que Ricardo Robles tem apontado como um dos principais motivos para a carência habitacional no centro de Lisboa.

(André Azevedo Alves em “ O Insurgente”)

Só que a mentira tem perna curta…

E assim temos factos novos: o que diz o proprietário de um prédio contíguo ao do Robles:

Marcos Soromenho Santos.

Eu tenho um prédio contíguo ao dele e as obras que ele fez (e foi ele e não a irmã, que nunca sequer apareceu nas reuniões que tivemos, sendo que o prédio foi comprado a meias pelos dois) não eram de todo permitidas por vários motivos (edificou sem parecer prévio sobre a muralha fernandina, subiu paredes sobre dois saguões prejudicando a qualidade do ar dos cómodos de rés-do-chão, que são meus, modificou o sistema de águas dos telhados sobre  o meu prédio sem o meu consentimento, chegou a a fazer intervenções definitivas de obra num terraço que é meu apesar de previamente eu não ter consentido. Fiz por isso queixa à Câmara que lhe deu razão em tudo, num parecer vergonhoso que me foi remetido, com a clara conivência de pelouros do PS (leia-se Medina). Esta gente não é séria, está lá para se servir pessoalmente, tal como aconteceu no caso da compra do andar do Medina à Isabel Teixeira Duarte. Lisboa está a saque, com prejuízo para quem é de facto da cidade.

Em conclusão:
Estou a ponderar seriamente enviar uma proposta de compra do imóvel do Robles pelo custo do investimento mediante a assunção do valor do passivo mais 1€ e assim aliviar o moço deste fardo de ser capitalista sem querer! Não acham que era uma forma de ser solidário ?”

Ricardo Ventura.