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Chipre, um pequeno pormenor? – por Rui de Brito em 19/12/2006
Rui de Brito

Chipre, um pequeno pormenor? – por Rui de Brito em 19/12/2006

“Não se estará, a pretexto do ideal democrático a caminho de um futuro Império ? Ou a pergunta não tem cabimento neste contexto?”

Dezembro 19, 2006

Chipre é uma grande ilha do Mediterrâneo oriental situada a sul da Turquia e a oeste da Síria. Em 1925 tornou-se uma colónia britânica (onde ainda se situam duas Bases militares sob a sua soberania ,Dheketia a leste e Akrotiri a sul ) encontrando-se hoje uma significativa parte do território Norte ocupado pelos turcos, desde a invasão em 1974.

A independência da ilha foi reconhecida em 1960, após os acordos de Zurique e Londres em 1959. Hoje, depois da invasão turca, encontra-se dividida, tendo os turcos proclamado esse território como República Turca do Chipre Norte, apenas reconhecida pelo Governo de Ankara e sob a sua tutela. A própria capital, Nicósia, encontra-se dividida entre cipriotas gregos e turcos.

Quando nos debruçamos sobre os mapas numa óptica geoestratégica, percepciona-se que a ilha de Chipre é como um gigantesco porta-aviões que, arvorando uma bandeira nacional ou internacional, poderá desempenhar um papel de polícia para o Médio Oriente. Recordemos o conceito adquirido de polícia do mundo que recentemente se generalizou.

Se a ilha fosse agregada à Grécia, hoje parceira da EU, poderia ser utilizada como um bloqueio para os portos turcos, controlo marítimo logo, uma ameaça para a Turquia.

Ora, a situação é, actualmente, a contrária, embora a Turquia seja parceira da NATO.

Mas porque motivo é a Turquia parceira militar da NATO? Resumindo, porque durante a Guerra Fria o Império Soviético representava uma ameaça. Eis porque permanecem no país pelo menos duas grandes bases Nato, Konya e Incirlik. Essa ligação política militar com o Ocidente concedeu-lhe ainda o benefício de milhões de dólares. Assim, não é descabido afirmar-se que a questão cipriota não só é uma espécie de relíquia da velha “Questão do Oriente” como também um ponto muito delicado para a adesão da Turquia à União Europeia.

Ora, a Turquia, com mais de 60 milhões de habitantes, dos quais 99,9% muçulmanos governados por um Estado laico (outra história que neste espaço não cabe) iniciou, após o fim da Guerra Fria, uma política de aproximação e entendimento, na perspectiva duma comunidade de povos turcos(turcos do exterior), desde o Adriático até às fronteiras da China, com especial empenho nas repúblicas turcófonas da Ásia Central, Uzbequistão, Cazaquistão, Turquemenistão , Quirziquistão e até o Azerbaijão. Enviaram professores de turco, estabeleceram joint ventures e investiram na TV por satélite para substituir canais em língua russa, o que custou milhões de dólares.

Na realidade, todo esse esforço tendia a proporcionar-lhe uma situação geopolítica na área, de Potência Directora.
Porém, o ressurgimento islâmico obrigou a recuos, sobretudo quando a elite dirigente tentou cimentar relações com Israel. Esse mesmo ressurgimento despertou ainda ressentimentos latentes anti-ocidentais e agitou os islamitas turcos.

Mas voltemos à ilha de Chipre. porta-aviões de quem? Para já, dos turcos, ou seja, muito mais do Islão, frente à Síria e ao Líbano, com Israel ao alcance.

Enfocar a questão de Chipre é oportuno porquanto é um ponto fulcral a discutir no protocolo sensível da pretendida adesão da Turquia à Comunidade. As reticências são muitas. Qual a percepção da Alemanha (do povo alemão, diga-se) com mais de 1 milhão e 700 mil turcos emigrantes no seu território? O que pensa o povo europeu se é que ainda consegue pensar – com mais de 14 milhões de emigrantes islâmicos a viver no seu espaço civilizacional?

A questão de Chipre/Turquia é um indício relevante de que o decorrer deste século será agitado e de mudança e que a perspectiva da mundialização, ou da globalização como termo extremo, contempla a guerra de grande intensidade como argumento último. Não poderemos deixar de ter em consideração que as elites políticas do ocidente encaram a viabilização de um projecto hegemónico global e que, à luz da História, a Turquia é um “corredor” entre civilizações. Por outro lado, a Europa está desde a última guerra debaixo da poderosa influência dos EUA, cujo porta-aviões é a Inglaterra,

Pará já, entidades com rosto como Bush, Blair e outros, muitos deles sócios do clube de Bilderberg , decidirão sem a nossa interferência o que mais convier às ambições coniventes.

Não se estará, a pretexto do ideal democrático a caminho de um futuro Império ? Ou a pergunta não tem cabimento neste contexto?
Neste momento os EUA não estão em condições de se tornar um império.

Rui de Brito, 19 de Dezembro de 2006.