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Carta para o meu irmão de cor – por Rui de Brito, 1964
Rui de Brito

Carta para o meu irmão de cor – por Rui de Brito, 1964

“Pela primeira vez, desde que o mundo é mundo, o branco tirou-te definitivamente a alcunha de Preto e chama-te Negro.”

Meu querido irmão de cor diferente :

Nestes tempos conturbados, fala-se muito de ti.

Fala-se num tom humanista que chega quase a ser comovente.

Pela primeira vez, desde que o mundo é mundo, o branco tirou-te definitivamente a alcunha de Preto e chama-te Negro.

Pela primeira vez, desde que o mundo é mundo, uns reclamam-te como irmão legítimo, outros como aliado, e outros como ser independente e pleno de direitos. Jamais como servo ou como escravo.

Pela primeira vez, desde que o mundo é mundo, os brancos constroem frases a teu respeito, definindo os mais nobres ideais e os mais brancos propósitos.

Mas tu sabes que eles disputam por meio de novas armas, a possibilidade de te explorarem durante mais um número indeterminado de gerações. Tu bem sentes esta verdade, irmão esclarecido mas de cor diferente.

É por este motivo que te escrevo uma carta. Eu não tenho em mim o crime de escravatura e de espoliação. Eu não sou o falso missionário que vende bugigangas e amuletos aos homens do teu povo. Eu não sou aquele que reclama a posse da tua terra só porque outros a baptizaram com sangue de luta. Em toda a parte do mundo há conquistadores; por isso mesmo te dirijo a palavra. Falamos a mesma linguagem.

Quando era criança e vi um homem como tu, satisfizeram-me pela primeira vez a curiosidade com uma única palavra : Preto.

Depois encontrei-te de novo na História. No inferno da conquista e no clamor dos escravos. Após essa era gloriosa, encontrei-te numa forma bárbara do capitalismo : “O trabalho é bom para o Preto”.

Os filmes mostraram-te ao mundo, levando pancada e servindo à mesa, enquanto a tua mulher amamentava num peito generoso os filhos de pele diferente.

Por tudo isto irmão de cor, pensei em ti, e tentei descobrir-te em novas formas. Encontrei-te tal qual tu és. Encontrei-te, apesar da selvajaria premeditadamente mantida. Encontrei-te e por isso te escrevo.

Há muita coisa que ainda ignoras, irmão de cor. É que entre nós, superiormente brancos, se pratica a escravatura, o massacre e a exploração. Nisto, só somos diferentes no método. Os homens traem em qualquer cor, assassinam em qualquer cor, roubam em qualquer cor.

Por tudo isto, os homens amam em qualquer cor, sofrem em qualquer cor, morrem por ideais em qualquer cor.

As mulheres do teu povo têm os filhos nas mesmas dores e choram os que morrem na mesma dor. Os velhos do teu povo, são também venerandos e débeis como os nossos.

É quanto basta para que sejamos iguais à face da terra.

 

Irmão de cor diferente :

Apesar da nossa cultura, da nossa arte, da nossa técnica e da nossa justiça, já nada nos separa, a não ser a circunstância e o predomínio, dado que se exercem as mesmas violências e se cultivam os mesmos impulsos. Eis porque te escrevo esta carta : para te oferecer o meu amor e a minha compreensão. O mal não está nas raças mas sim nos homens, indistintamente.

Ambos precisamos de ser libertos, meu querido irmão de cor !

 

BRITO, Rui de – O Lugar e o Tempo, ed. Sagitário, (1964)